domingo, 23 de julho de 2017

O Edito de Tessalônica - por Adi



O Edito de Tessalônica, emitido por três imperadores Romanos em 380 AD, marcou o início da Cristandade.

A perseguição à igreja cristã primitiva sob o Império Romano foi temporariamente suspensa pela primeira vez no começo do século IV, com os imperadores Constantino Magno e Licínio I, que lideraram respectivamente as partes ocidental e oriental do império, com o Edito de Milão em 313. O Edito determinou que os Cristãos devessem ser tratados com benevolência dentro do Império Romano. Os sucessores de Constantino, Constâncio II e Juliano Apóstata, entretanto, favoreceram o paganismo, o arianismo e o judaísmo sobre o Cristianismo.

A dinastia Constantiniana acabou em 364 AD, para ser sucedida pelos Valentinianos. Estes governariam o Império Romano do Ocidente até 392, e o Oriente até 378. Os dois primeiros imperadores desta dinastia, Valentiniano I e Valente, eram ou imparciais ao Cristianismo ou favoráveis aos arianos.

Em 367 as coisas começaram a mudar radicalmente para o Cristianismo no Império Romano. Graciano, filho de Valentiniano I, sucedeu Valente como imperador romano. Graciano recusou participar do culto imperial e removeu alguns ídolos pagãos de espaços públicos em Roma. Ele apontou o bispo cristão S. Ambrósio como seu conselheiro-chefe. Também apontou, como co-regente Cristão no oriente Teodósio I, um primo de sua esposa.

Sob a influência do pai da Igreja e bispo S. Ambrósio, Graciano e Teodósio perceberam que a política de pluralismo religioso existente era insustentável. Com a rejeição ao culto imperial por parte de Graciano, um vácuo religioso subsistiu no império, já que isto efetivamente desestabilizou a religião pública da época. Junto com o jovem co-regente ocidental, Valentiniano II, eles consequentemente emitiram o Edito de Tessalônica, o que tornou o Cristianismo oficialmente a religião do estado do Império Romano.

O Edito declarou:

"Queremos que todos os povos governados pela administração da nossa clemência professem a religião que o divino apóstolo Pedro deu aos romanos, que até hoje foi pregada como a pregou ele próprio, e que é evidente que professam o pontífice Dámaso e o bispo de Alexandria, Pedro, homem de santidade apostólica. Isto é, segundo a doutrina apostólica e a doutrina evangélica cremos na divindade única do Pai, do Filho e do Espírito Santo sob o conceito de igual majestade e da piedosa Trindade. Ordenamos que tenham o nome de cristãos católicos quem sigam esta norma, enquanto os demais os julgamos dementes e loucos sobre os quais pesará a infâmia da heresia. Os seus locais de reunião não receberão o nome de igrejas e serão objeto, primeiro da vingança divina, e depois serão castigados pela nossa própria iniciativa que adotaremos seguindo a vontade celestial.”

O edito é também conhecido como Cunctus populos, suas duas primeiras palavras em latim, geralmente traduzidas como “todos os povos”, mas poderiam ser melhor traduzidas como “nações unidas”. As duas primeiras palavras escolhidas pelos Imperadores Cristãos falam muito sobre sua visão e ideia para o império. Os imperadores não viam o império como um país. Nem o viam como uma nação. Eles o viam como um grupo de nações Cristãs co-existindo pacificamente sob seu reino. Em outras palavras, eles rejeitavam a ideia de nação proposicional. Isso indica um claro entendimento do princípio da cosmovisão Cristã do uno e do múltiplo, cujas raízes estão na natureza trinitária de Deus, por parte destes dois grandes imperadores.

O filósofo calvinista R.J. Rushdoony observou:
A redução religiosa de toda a realidade a um é panteísmo...[isto] pressupõe a unidade como única virtude...[em oposição] temos uma distinção que não existe no pensamento não-Cristão: temos um uno-e-múltiplo temporal no universo criado, e temos um Uno-E-Múltiplo eterno na trindade ontológica.¹

Esta era a filosofia dos imperadores. Ela é muito diferente dos objetivos de grupos inspirados pelo Iluminismo, como as Nações Unidas, que não toleram nenhuma das distinções criadas por Deus. Na verdade, a civilização Cristã que este edito iniciou foi caracterizada por uma pluralidade de autoridades governamentais co-existentes, exercendo poder descentralizado de uma maneira que pode ser descrita como subsidiariedade: duques, príncipes, bispos, reis e imperadores, todos co-reinaram pacificamente na Cristandade por mais de mil anos. Este arranjo estabelecido só seria interrompido pelos objetivos amalgamacionalistas da Revolução Francesa, que marcou o início do fim da Cristandade Ocidental.

Eu escolhi este aspecto particular deste edito histórico como meu foco para este artigo, mas outros elementos louváveis claramente expressos que não podem deixar de ser mencionados incluem: o respeito pela tradição como meio para preservar a verdadeira religião; e uma visão solidamente teonômica da lei.

O Edito de Tessalônica precisa ser reafirmado uma vez que nós, como nações cristãs ocidentais, reconquistamos a autodeterminação.

Notas:

¹ RJ Rushdoony, The One and the Many. Thoburn Press: Fairfax, Virginia, 1978, pp. 6, 7,10, traduzido livremente.

texto original: The Edict of Thessalonica
tradução: Jonathan Arthur Morandi

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Horários Fixos de Oração - por Dave Hall



“Então, como está sua vida de oração?”

Como pastor, quando as pessoas me procuram para aconselhamento pastoral, ou formação espiritual, sempre surge uma questão na conversa: “então, como está sua vida de oração?” Por mais de 17 anos a resposta tem sido geralmente “bem, poderia ser melhor”. Alguns inclusive respondem honestamente “bem, basicamente ela não existe.”

Eu entendo muito bem, porque eu mesmo já passei por isso. Por vezes estamos muito ocupados, outras vezes passamos por algo tal que, mesmo tendo tempo para orar, não sabemos exatamente o que dizer, as palavras nos faltam. Isto certamente foi verdadeiro para mim até alguns meses após perder meu pai. Meu espírito se preocupava demasiadamente com as coisas do mundo, eu não tinha palavras, não conseguia orar, tinha muito pouca energia ou desejo para isso.

Pouco tempo após perder meu pai, tendo me retirado a um monastério descobri o costume monástico dos horários fixos de oração. Isto me intrigou, então tornei-me estudante, e enquanto passava pelas profundezas de minha inabilidade no desejo de oração, encontrei renovo ao praticar pausas rítmicas durante meu dia para focar em Deus, orando os salmos, e talvez também algumas orações escritas por santos do passado. As vezes Santo Agostinho, Francisco, ou Merton pensavam e escreviam exatamente o que eu sentia em meu coração. Também fui apresentado a ricos exemplos daqueles que praticavam um ritmo diário de oração na narrativa bíblica e na história.

Sobre Daniel foi dito

“e três vezes no dia se punha de joelhos, e orava, e dava graças diante do seu Deus” - Daniel 6:10

Esta é uma das primeiras referências registradas nas Escrituras sobre orar em tempos específicos do dia. De onde Daniel tirou esta ideia? Nos Salmos encontramos referências sobre oração em tempos específicos, aqui estão algumas:
  • Oração Matutina:
Pela manhã ouvirás a minha voz, ó Senhor; pela manhã apresentarei a ti a minha oração, e vigiarei. – Salmo 5:3 (ver também Salmo 55:17; 59:16; 88:13; 92:2)
  • Oração Vespertina:
Quando me lembrar de ti na minha cama, e meditar em ti nas vigílias da noite. – Salmo 63:6
  • Oração da Noite:
Lembrei-me do teu nome, ó Senhor, de noite, e observei a tua lei (Salmo 119:55)
  •  3 orações durante o dia:
De tarde e de manhã e ao meio-dia orarei; e clamarei, e ele ouvirá a minha voz (Salmo 55:17)

Historicamente falando

O povo de Deus no Antigo Testamento desenvolveu horários fixos de oração durante o cativeiro na Babilônia, quando não tinham acesso ao Templo. Isto era exatamente o que Daniel fazia. Por não terem mais o templo, os sacrifícios, seu antigo ritmo de vida, em esforços para manterem alguma sanidade entre as grandes mudanças na Babilônia, o povo de Deus criou a prática de manter horários de oração.

Os apóstolos também observavam este costume de orar nas horas terça, sexta e nona, e também à meia-noite. Se você observar pelo livro de Atos, descobrirá várias referências a este respeito, pode inclusive já ter visto e não ter percebido:
  • Um dia Pedro e João foram ao templo na hora da oração, a hora nona – as três da tarde – Atos 3:1
  • Um dia Cornélio, também durante a hora nona, teve a visão de um anjo de Deus, que veio a ele disse “Cornélio! ” – Atos 10:3·
  • Pela meia-noite Paulo e Silas estavam orando e cantando hinos a Deus, e os outros prisioneiros os escutavam – Atos 16:25

Progressão Histórica

Então vemos uma progressão histórica, desde a cultura do antigo povo de Deus, até os apóstolos, até à igreja primitiva, que também praticava tempos regulares de oração durante o dia. Pais da Igreja tais como:
  • Clemente (c.150-250 d.C.)
  • Orígenes (c.185-254 d.C.)
  • Tertuliano (c.160-225 d.C.)
Todos reportaram aderirem a prática espiritual de horas regulares de oração.

Como os cristãos primitivos continuaram a prática de orar certas horas durante o dia ou noite, o desenvolvimento da Liturgia das Horas, ou Oração Monástica, continuou. No tempo de São Bento (século VI), haviam 7 tempos de oração por dia. Bento adicionou um 8º horário, em concordância com o moto Beneditino “ora et labora” (orar e trabalhar) para a vida dos monges.

As horas monásticas de oração seguiam desta maneira:
  • Matinas – meia-noite
  • Laudes – 3 da manhã
  • Prima – 6 da manhã
  • Terça – 9 da manhã
  • Sexta – Meio-dia
  • Nona – 3 da tarde
  • Véspera – 6 da tarde
  • Completas – 9 da noite
Com o 8º ofício de oração, os monges oravam a cada 3 horas. Isso pode parecer estranho, mas se pensar sobre isso, é também confortável perceber que em todos os tempos, e em todos os lugares, existiram e existem pessoas comprometidas a orar pelo mundo, por séculos.

Do monastério para as ruas de sua própria cidade

Três ordens foram fundadas por São Francisco: Os monges, as irmãs e a terceira ordem. A terceira ordem, conta-nos a história, foi fundada depois de Francisco e os irmãos pregarem em um vilarejo as palavras de Jesus “Vá e venda tudo o que tem, então vem e siga-me”. O vilarejo de aproximadamente 3000 pessoas, depois de ouvir a pregação, disse: “Ok Francisco, estamos prontos para largar tudo e te seguir...” Francisco deve ter pensado “E agora, o que farei com mais 3000 pessoas me seguindo” e assim nasceu a ordem terceira. Ela foi estabelecida para pessoas comuns que queriam viver uma vida de oração, generosidade e amor puro a Deus e aos homens. Com a terceira ordem estabelecida o povo podia viver e orar como um monge, sem realmente deixar todo o resto e ir a um monastério. Eles podiam criar seus filhos, trabalhar e cuidar de suas famílias, e podiam orar.

Desenvolvimentos posteriores nos horários fixos de oração nos deram:


  • O Livro de Oração Comum foi originalmente escrito em 1549, e seguiu um modelo monástico de oração.
  • A Comunidade Ecumênica Taize, na França, onde mochileiros vão e ficam com os irmãos simplesmente para orar, foi fundada em 1940.
  • A Comunidade Northumbria, estabelecida por volta de 1980, concede uma aura celta e mantém as horas de oração. Outras várias comunidades neo-monásticas trouxeram um renascimento para as horas fixas de oração.
  • The Divine Hours, uma recriação de ofícios clássicos de oração de Phyllis Tickle, originalmente publicada em 2000.

Formação espiritual em dificuldade

No trabalho do cuidado pastoral frequentemente eu encorajo as pessoas, especialmente em tempos difíceis, a adotarem e manterem dois ou três pequenos ofícios de oração por dia, eu tento obter livros extras de oração para distribuir, conforme vejo necessidade. Muitas vezes as pessoas voltam para relatar os benefícios que obtiveram das horas fixas de oração em tempos difíceis.

Lei é morte, mas liberdade é vida

A ideia de horários fixos de oração deve servir para desenvolver sua vida de oração, não para cumprir uma obrigação. Se você marca o horário no relógio, se torna um escravo disso, e condena a si mesmo se falhar, então você não entendeu. O objetivo de fixar horas de oração é praticar, ser intencional e focar em sua conversa, ação de graças e no ouvir a Deus. Se isto está alimentando sua alma, então busque duas ou três pequenas pausas durante o dia para focar novamente em Deus, e estar em sua presença. É disso que isso tudo se trata!

Original: Fixed Hour Prayer
Tradução: Jonathan Arthur Morandi

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Como a Reforma Falhou - por Peter J. Leithart





Os Reformadores não começaram com um plano para criar igrejas separadas. Seu objetivo era reformar toda a igreja Latina. Nisto eles falharam.

O paradoxo é grande, e se nós Protestantes vamos reconhecer isto honestamente com nossa história durante este ano de celebração, necessitamos sentir seu ponto e seu limite.

A Reforma foi genuinamente uma redescoberta do evangelho. Scott Hendrix (Recultivating the Vineyard) argumenta que ela foi um esforço para re-evangelizar e Cristianizar uma civilização que apesar de oficialmente Cristã, o era superficialmente. Eles de muitas maneiras tiveram sucesso, colocando a igreja e o mundo em uma jornada sem precedentes. 

Os reformadores atacaram teologias medievais errôneas sobre a graça que, em prática, faziam as pessoas acreditarem que Deus ajudava aqueles que ajudavam a si mesmo. A igreja Católica nunca negou o sacerdócio dos crentes, mas ela o obscureceu e o comprometeu de muitas formas; os Reformadores restauraram o entendimento bíblico do sacerdócio Cristão. Eles treinaram ministros para ensinarem a Bíblia, e ensinaram a Bíblia aos leigos; criaram instituições de supervisão e disciplina para garantir que os Cristãos e seus líderes estavam vivendo de maneira Cristã. A própria igreja Católica passou por uma reforma, provocada parcialmente pelos Reformadores.

Alguns acusam os Reformadores de terem tido a intenção de dividir a igreja, por supostamente terem pouco interesse na unidade visível dela, mas isso é falso. Todos os Reformadores e todas as confissões Protestantes insistem na unidade e catolicidade da igreja. Calvino lamentou o que ele chamava de “mutilação” do corpo de Cristo.

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Longe de negar ou fazer pouco caso da visibilidade da igreja, a Reforma foi um esforço para tornar a igreja visível. A igreja Católica certamente era visível, mas somente em seu poder, suas riquezas e sua proeminência social. Enquanto que a essência da igreja – a comunhão dos santos – estava oculta. Se você entrasse em uma igreja Católica no século dezesseis, veria um sacerdote realizando a Missa, mas não veria os crentes leigos partilharem da refeição Eucarística; já se entrasse em uma igreja Protestante, veria os santos comendo pão e bebendo vinho, santos recebendo os elementos santos, a mesa da comunhão dos santos estava visível.

Tudo isso meramente torna ainda maior o paradoxo da Reforma. Os Reformadores recuperaram o evangelho, e enfatizaram a unidade e catolicidade da igreja como implicação do mesmo. Ainda assim eles deixaram a igreja dividida.

Como Lee Palmer Wandel (The Reformation) apontou, a fragmentação da igreja foi penetrante, profunda e sem precedentes. Em 1500, o termo “Cristão” era unívoco; já em 1600, existia uma variedade de definições para esta palavra, e Cristãos de uma tradição não necessariamente consideravam Cristãos de outras tradições como Cristãos. Em 1500, um Cristão podia viajar de uma ponta a outra da Europa sem medo de perseguição; em 1600, toda forma de Cristianismo era ilegal em algum lugar no continente. Em 1500, a Missa Latina era a liturgia da igreja por toda a Europa Ocidental; em 1600, muitas liturgias Eucarísticas diferentes e mutuamente excludentes eram realizadas.

A divisão penetrou famílias e vizinhanças. Católicos cujos filhos contraíssem casamento em celebrações Protestantes não-sacramentais consideravam seus próprios netos como bastardos. O tempo era contado de forma diferente em diferentes partes da Europa: Católicos e Protestantes viviam em diferentes zonas de fuso horário.

Como isso aconteceu? Como pode uma Reforma comprometida com o evangelho, com a catolicidade e com a unidade dividir a igreja Ocidental e a civilização Europeia?

A própria igreja Católica foi uma das principais culpadas. Lutero reclamava que seus argumentos nunca eram engajados ou debatidos. Quando presente perante autoridades Católicas, elas simplesmente exigiram que ele se arrependesse. Lutero foi excomungado poucos anos depois da publicação das 95 teses, sem ter recebido uma séria e muito menos compreensiva oitiva. 

Teologicamente, divisão é obra misteriosa de Deus. Deus cria e recria o mundo por divisão e reunião. Ele o criou separando a luz da escuridão, as águas acima do firmamento das águas abaixo, a terra do mar. Ele criou Eva ao dividir Adão em dois. Todo profeta enviado a Israel veio com a espada. Moisés, Samuel, Elias e Eliseu, Isaías, Jeremias, Jesus: todos eles reuniram pessoas que queriam ouvir a palavra do SENHOR, e provocaram a hostilidade daqueles que fecharam seus ouvidos. Divisões acontecem, e quando Deus começa a renovar Sua igreja, podemos esperar por elas.

Ainda assim isso não pode ser justificativa para as divisões da Reforma, ou causa para complacência. Deus divide a fim de reunir: Adão se torna Adão-e-Eva de maneira que ambos se tornam uma carne; Israel e Judá se separam a fim de serem reunidos séculos depois; Judeus e Gentios são divididos pelo corte da circuncisão a fim de serem reunidos na circuncisão da cruz do Messias. Além disso, dizer que Deus cria e recria através da divisão não justifica toda e qualquer divisão. Algumas são necessárias; outras são legítimas, mas temporárias; ainda outras são mutilações do corpo de Cristo.

A história da fragmentação da Reforma é complicada, mas podemos isolar um caso central: a divisão de Lutero e Zwínglio sobre o caso da real presença, no Colóquio de Marburg em 1529. Uma vez divididos, seus seguidores perpetuaram a cisão. Cada lado, é claro, estava convencido de estar defendendo a verdadeira Reforma e de que o lado opositor havia comprometido ou distorcido o evangelho. Assim convencidos, eles mantiveram tradições separadas a fim de protegerem a pureza do evangelho.

Dois fatores são cruciais na perpetuação da divisão Protestante. O primeiro é a retórica. Sem seus vivos, interessantes e penetrantes discursos e discursadores, a Reforma não teria tido sucesso. Como Peter Matheson argumenta (Rhetoric of the Reformation), as contestações da Reforma eram libertadoras, clarificadoras, fortalecedoras. Isso era uma ferramenta dos sem poder contra os poderosos, e Lutero era seu mestre. Ainda assim, os Reformadores eventualmente viraram seus consideráveis poderes de retórica uns contra os outros, criando lados altamente contrários e tratando toda disputa como uma guerra cósmica de luz contra escuridão, verdade contra erro. A querela da Reforma tornou-se propaganda, o que reforçou o grupo de identidades de comunhões separadas ao demonizar outras igrejas. Mesmo com todas as virtudes da retórica, Luteranos e Reformados teriam sido mais bem servidos de respostas gentis.

O segundo fator é a formulação de confissões e a confessionalização. Confissões foram escritas para unificar Protestantes divididos. A Formula de Concordia encerrou a guerra entre Luteranos, e o Consensus Tigurinus unificou o Protestantismo suíço. Mesmo assim toda confissão também dividiu uma tradição da outra. Ao definir a doutrina Luterana contra as tendências Reformadas dentro do Luteranismo, a Formula de Concordia levou os Philipistas (seguidores de Philip Melanchthon) ao underground ou às igrejas Reformadas. Toda confissão era um projeto contrário a outro, parte da perpetuação deliberada de tradições separadas que teve seu início em Marburg.

A confessionalização – ensinar e aplicar ensinamentos de uma confissão – perpetuou as divisões confessionais. Não era suficiente escrever uma confissão. Pastores tinham que ser ensinados nela, e precisaram ser desenvolvidos mecanismos que garantissem que eles continuassem a ensinar doutrina confessional depois de serem ordenados. Mesmo na melhor das circunstâncias, quando um ponto de vista contrário era tratado justamente e bondosamente, a confessionalização reforçou e aprofundou a divisão confessional. E as circunstâncias nem sempre eram as melhores. Mestres e pastores nem sempre tratavam visões contrárias com bondade e justiça. Muito mais do que o necessário, sábio ou bondoso, eles adotaram a retórica severa dos Reformadores.

A divisão inicial em Marburg em 1529 não foi intencional. Marburg começou como um esforço para unificar o movimento Protestante. Mas uma vez que Lutero e Zwínglio seguiram caminhos diferentes, o desenvolvimento de tradições Luteranas e Reformadas separadas foi intencional.

Se os Reformadores tivessem sido permitidos a permanecerem na igreja Católica, se a hierarquia Católica se submetesse à correção e arrependimento, a Reforma teria sido sucedida. Ela seria ainda mais sucedida se tivesse permanecido um movimento unificado. Banida da igreja Católica e dividida em tradições separadas, a Reforma falhou: falhou no seu objetivo inicial e primordial – reformar a igreja Ocidental de acordo com o evangelho, cristianizar a civilização Cristã na Europa Ocidental. E ela ao final não terá sucesso até que as feridas da igreja de sua época e da época da pós-reforma (sem mencionar as da pré-reforma) sejam curadas.

O protestantismo não alcançará seu objetivo até que cessem as divisões da Reforma.

texto original: How the Reformation Failed 
tradução: Jonathan Arthur Morandi

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Uma Teoria Eucarística da Cultura - por Peter J. Leithart



A Ceia do Senhor é um modelo ideal de refeição, mas por essa mesma razão ela é também modelo para uma comunidade devidamente ordenada, da ordem correta para a sociedade humana. Como nós comemos juntos, e com quem comemos nos diz que tipo de comunidade somos.

Ela também apresenta um modelo de trabalho, criatividade, cultura, de toda a esfera de criação humana. Na Eucaristia não comemos grãos, mas pão. Não bebemos água nem comemos as uvas da videira; bebemos o vinho. Tanto o pão quanto o vinho são produtos culturais, resultado do trabalho humano. Precisamos plantar e colher o grão, transformá-lo em farinha, misturar à farinha outros ingredientes, cozinhar, para fazer o pão. A produção do vinho é um processo complicado que requer enormes habilidades e conhecimento.

Ao produzir pão e vinho, estamos simulando a criatividade de Deus, que toma a criação, a quebra, junta-a novamente de novos modos, dá a ela um novo nome, afirma que é boa. A produção de pão e de vinho imita a obra criativa de Deus.

Fazemos isso o tempo todo. Recriamos o que vem até nós na criação. Não podemos deixar de fazer isso. Nenhum ser humano existe em um ambiente puramente natural. Nós o transformamos toda hora. Esse é o jeito que somos, segundo a imagem do Deus criador.

E o que a Ceia do Senhor nos mostra sobre nosso ato criativo? Ele é direcionado a adoração. O pão e o vinho substituem todos nossos produtos culturais, e os trazemos à presença de Deus. Como protestantes, não acreditamos que Cristo é re-sacrificado na Ceia, mas acreditamos sim em um sacrifício de louvor e auto entrega. E não se trata apenas da entrega de nós mesmos, mas dos produtos de nossas mãos, as coisas que manipulamos e manufaturamos. São ofertas apropriadas a Deus. E Deus aceita – inclusive determina – que tragamos estes produtos culturais à Ele.

Não apenas no Dia do Senhor, mas todos os dias: oferecemos nossas obras a Deus em adoração, especificamente com um ato de ação de graças. Quando trazemos pão e vinho – e, por implicação, tudo o que criamos e fazemos – perante o Senhor, fazemos isso com ações de graças. Isso é marcante: afinal, nós criamos o pão e o vinho. E ainda agradecemos a Deus por eles. Agradecemos a Ele pelos produtos de nossas mãos, porque mesmo as coisas que criamos – nossas próprias obras – são dons dEle para nós. Paulo diz que ação de graças é um ato de consagração: toda a criação é boa, e nada deve ser rejeitado se recebido com ações de graças; porque é consagrado pela Palavra de Deus e pela oração. Quando damos graças pelo que produzimos, estamos consagrando as obras de nossas mãos a Deus. E tendo dado graças diante da mesa, somos treinados para viver vidas de contínua Eucaristia, contínua ação de graças, dando graças, como Paulo diz, por todas as coisas em todo o tempo.

Trazemos o que criamos para Deus. Mas Ele não toma isso de nós. Trazemos o que temos para Deus, e Ele compartilha conosco. E assim as coisas que criamos se tornam meios de comunhão com Ele.

A Eucaristia é o que o mundo deve ser: Criação bruta cultivada em grãos e uvas. Criação cultivada trazida à sua plenitude no ato de cozinhar. Criação cozida desfrutada na presença de Deus. Criação cozida desfrutada em comunhão numa comunidade de adoradores. Criação cozida entregue em louvor e recebida com ações de graças. O final de todas as coisas é a ceia de casamento do Cordeiro, e na Ceia do Senhor antecipamos esta última festa, a festa que é a culminação de toda a criação. A história é direcionada a um casamento eterno, e nossas vidas devem ser vividas preparando o mundo para uma festa de casamento que já temos desfrutado.

Na Eucaristia, trazemos a criação a sua plenitude. Transformamos a criação em coisas úteis e agradáveis para nós, e damos graças.

E assim a Ceia do Senhor nos revela a nós mesmos. É para isso que fomos criados: para sermos sacerdotes e reis, dominando a Terra, transformando-a de glória em glória, e levando toda ela a um grande banquete Eucarístico.

autor: rev. Peter J. Leithart
link original: A Eucharistic Theory of Culture

tradução: Jonathan A. Morandi

terça-feira, 29 de março de 2016

Quarenta dias: a experiência de um penitente iniciante





“Dias virão, contudo, em que lhes será tirado o Noivo;

e, nesse tempo, jejuarão”

S. Marcos, 4.20



Neste ano, pela primeira vez, assumi o firme propósito de observar o tempo da Quaresma. Não, não sou católico-romano. Pela graça do bom Deus, sou a quarta geração de presbiterianos da minha família. Se para você um protestante observando a Quaresma soar um tanto quanto esquisito, sugiro a leitura deste artigo (colocar link: http://reformedfaith.blogspot.com.br/2015/02/reflexoes-sobre-quaresma-sob-uma.html) do meu confrade Alla Gallo Antonio. Como eu dizia, neste ano, pela primeira vez, assumi o firme propósito de observar o tempo da Quaresma. Tomada a decisão, comuniquei-a à minha esposa, a qual, como verdadeira “auxiliadora idônea” (Gn 2.18), voluntariamente assumiu o mesmo propósito que eu.

Nestes quarenta dias escolhi algumas abstinências dietéticas, bem como a renúncia a alguns confortos e distrações; gastei mais tempo com as minhas devoções particulares e procurei detectar onde e como eu poderia melhorar como cristão, marido e pai. Tal qual Jacó que, por amor à Raquel, laborando em prol do seu sogro, sentiu que os anos passaram-se como dias (Gn 29.20), assim poderia eu dizer que estes últimos quarenta dias passaram-se como se fossem algumas horas. Não quero afirmar, com isto, que o jejum tenha sido fácil; ou que o desejo pelas distrações e confortos voluntariamente renunciados não tenha sido intenso. Não obstante, esses quarenta dias foram de tal forma intensos e reveladores, que o seu transcurso se manifestou, pela assistência do Espírito Santo, graciosamente mais rápido do que o foi na realidade. O presente texto que o caro leitor tem agora diante dos olhos nasceu do desejo deste “penitente iniciante” de comunicar, em linhas bastante simples e práticas, um pouco da sua experiência com a observação da Quaresma.

Observando o tempo da Quaresma eu pude sentir-me em estreito contato com a tradição cristã. A observância de um período de jejum e conversão precedendo a celebração da Páscoa data do século IV da era cristã. Desde então, milhões e milhões de cristãos ao redor do orbe terrestre, de todas as partes do mundo, das mais diversas escolas e tradições cristãs reservaram dias específicos para buscarem, de modo especial, a face de Deus através do jejum, da oração e da leitura das Escrituras. Contemplando agora já o crepúsculo da estação quaresmal, saio da mesma feliz por sentir em maior contato com a nossa bimilenar tradição cristã.

Observando o tempo da Quaresma eu pude constatar a importância de, e a capacidade que o Senhor nos confere, para subjugarmos a nossa carne. As disciplinas física e espiritual às quais voluntariamente me submeti nestes quarenta dias me revelaram como o Senhor Jesus Cristo, de fato, socorre aqueles que são tentados (Hb 2.18); como o Espírito Santo deveras nos assiste em nossas fraquezas (Rm 8.26). Contemplando agora já o crepúsculo da estação quaresmal, saio da mesma fortalecido em meu homem interior, consciente de que realmente não há tentação permitida por Deus que esteja acima das nossas capacidades (1Co 10.13).
Observando o tempo da Quaresma eu pude constatar quanto tempo vinha desperdiçando com coisas triviais. O simples abandono de alguns hábitos, a moderação em algumas práticas, um pequeno sacrifício no tempo de sono... e eis que meu dia “ganhou” algumas horas. Tempo para os exercícios devocionais, tempo para reflexão, tempo para a família. A instrução apostólica para “remir o tempo” (Ef 5.16) ganhou, para mim, sentido e aplicação todo especiais nestas últimas semanas. Contemplando agora já o crepúsculo da estação quaresmal, saio da mesma decidido a consagrar melhor o tempo que o Senhor me tem dado sobre a terra.

Observando o tempo da Quaresma eu pude tornar-me mais consciente de toda a humilhação à qual voluntariamente se submeteu o Nosso Senhor Jesus Cristo enquanto esteve entre nós. Nos períodos em que eu sentia-me mais acossado pelo desejo de transgredir os votos que voluntariamente assumi, eu recordava o exemplo de Cristo, o qual, durante o seu ministério terreno, levou toda uma vida de renúncias, abstinências e sacrifícios. Longe de ser um mero ascetismo irracional e estéril, o período quaresmal foi para mim as lentes pelas quais pude enxergar quão pueris serão as minhas queixas por quaisquer dificuldades que eu venha a enfrentar, quão ínfimas serão todas as limitações com as quais eu venha a me deparar nesta vida; em comparação com o exemplo de Cristo, que “a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo” (Fp 2.7), quaisquer sofrimentos ou contrariedades que eu venha a enfrentar são nada, são “menos que nada, como um vácuo”. Contemplando agora já o crepúsculo da estação quaresmal, saio da mesma decidido a ter firmemente diante dos meus olhos o exemplo de renúncia e abnegação que nos deixou Nosso Senhor Jesus Cristo.

Este foi um singelo resumo da experiência que pude desfrutar ao término desta temporada de quarenta dias. Espero que este relato e o seu tom um tanto pessoal não sejam recebidos pelo caro leitor como presunção, pieguice, ou qualquer outra coisa do gênero. Se este texto tiver servido para despertar o seu interesse pela Quaresma, dar-me-ei por satisfeito em ter exposto – e me exposto – nestas linhas tão desajeitas, um pouco daquilo que o Espírito Santo trabalhou no meu coração nas últimas semanas.

Feliz Tempo de Páscoa a todos!

Christus vincit!