segunda-feira, 18 de abril de 2016

Uma Teoria Eucarística da Cultura - por Peter J. Leithart



A Ceia do Senhor é um modelo ideal de refeição, mas por essa mesma razão ela é também modelo para uma comunidade devidamente ordenada, da ordem correta para a sociedade humana. Como nós comemos juntos, e com quem comemos nos diz que tipo de comunidade somos.

Ela também apresenta um modelo de trabalho, criatividade, cultura, de toda a esfera de criação humana. Na Eucaristia não comemos grãos, mas pão. Não bebemos água nem comemos as uvas da videira; bebemos o vinho. Tanto o pão quanto o vinho são produtos culturais, resultado do trabalho humano. Precisamos plantar e colher o grão, transformá-lo em farinha, misturar à farinha outros ingredientes, cozinhar, para fazer o pão. A produção do vinho é um processo complicado que requer enormes habilidades e conhecimento.

Ao produzir pão e vinho, estamos simulando a criatividade de Deus, que toma a criação, a quebra, junta-a novamente de novos modos, dá a ela um novo nome, afirma que é boa. A produção de pão e de vinho imita a obra criativa de Deus.

Fazemos isso o tempo todo. Recriamos o que vem até nós na criação. Não podemos deixar de fazer isso. Nenhum ser humano existe em um ambiente puramente natural. Nós o transformamos toda hora. Esse é o jeito que somos, segundo a imagem do Deus criador.

E o que a Ceia do Senhor nos mostra sobre nosso ato criativo? Ele é direcionado a adoração. O pão e o vinho substituem todos nossos produtos culturais, e os trazemos à presença de Deus. Como protestantes, não acreditamos que Cristo é re-sacrificado na Ceia, mas acreditamos sim em um sacrifício de louvor e auto entrega. E não se trata apenas da entrega de nós mesmos, mas dos produtos de nossas mãos, as coisas que manipulamos e manufaturamos. São ofertas apropriadas a Deus. E Deus aceita – inclusive determina – que tragamos estes produtos culturais à Ele.

Não apenas no Dia do Senhor, mas todos os dias: oferecemos nossas obras a Deus em adoração, especificamente com um ato de ação de graças. Quando trazemos pão e vinho – e, por implicação, tudo o que criamos e fazemos – perante o Senhor, fazemos isso com ações de graças. Isso é marcante: afinal, nós criamos o pão e o vinho. E ainda agradecemos a Deus por eles. Agradecemos a Ele pelos produtos de nossas mãos, porque mesmo as coisas que criamos – nossas próprias obras – são dons dEle para nós. Paulo diz que ação de graças é um ato de consagração: toda a criação é boa, e nada deve ser rejeitado se recebido com ações de graças; porque é consagrado pela Palavra de Deus e pela oração. Quando damos graças pelo que produzimos, estamos consagrando as obras de nossas mãos a Deus. E tendo dado graças diante da mesa, somos treinados para viver vidas de contínua Eucaristia, contínua ação de graças, dando graças, como Paulo diz, por todas as coisas em todo o tempo.

Trazemos o que criamos para Deus. Mas Ele não toma isso de nós. Trazemos o que temos para Deus, e Ele compartilha conosco. E assim as coisas que criamos se tornam meios de comunhão com Ele.

A Eucaristia é o que o mundo deve ser: Criação bruta cultivada em grãos e uvas. Criação cultivada trazida à sua plenitude no ato de cozinhar. Criação cozida desfrutada na presença de Deus. Criação cozida desfrutada em comunhão numa comunidade de adoradores. Criação cozida entregue em louvor e recebida com ações de graças. O final de todas as coisas é a ceia de casamento do Cordeiro, e na Ceia do Senhor antecipamos esta última festa, a festa que é a culminação de toda a criação. A história é direcionada a um casamento eterno, e nossas vidas devem ser vividas preparando o mundo para uma festa de casamento que já temos desfrutado.

Na Eucaristia, trazemos a criação a sua plenitude. Transformamos a criação em coisas úteis e agradáveis para nós, e damos graças.

E assim a Ceia do Senhor nos revela a nós mesmos. É para isso que fomos criados: para sermos sacerdotes e reis, dominando a Terra, transformando-a de glória em glória, e levando toda ela a um grande banquete Eucarístico.

autor: rev. Peter J. Leithart
link original: A Eucharistic Theory of Culture

tradução: Jonathan A. Morandi

terça-feira, 29 de março de 2016

Quarenta dias: a experiência de um penitente iniciante





“Dias virão, contudo, em que lhes será tirado o Noivo;

e, nesse tempo, jejuarão”

S. Marcos, 4.20



Neste ano, pela primeira vez, assumi o firme propósito de observar o tempo da Quaresma. Não, não sou católico-romano. Pela graça do bom Deus, sou a quarta geração de presbiterianos da minha família. Se para você um protestante observando a Quaresma soar um tanto quanto esquisito, sugiro a leitura deste artigo (colocar link: http://reformedfaith.blogspot.com.br/2015/02/reflexoes-sobre-quaresma-sob-uma.html) do meu confrade Alla Gallo Antonio. Como eu dizia, neste ano, pela primeira vez, assumi o firme propósito de observar o tempo da Quaresma. Tomada a decisão, comuniquei-a à minha esposa, a qual, como verdadeira “auxiliadora idônea” (Gn 2.18), voluntariamente assumiu o mesmo propósito que eu.

Nestes quarenta dias escolhi algumas abstinências dietéticas, bem como a renúncia a alguns confortos e distrações; gastei mais tempo com as minhas devoções particulares e procurei detectar onde e como eu poderia melhorar como cristão, marido e pai. Tal qual Jacó que, por amor à Raquel, laborando em prol do seu sogro, sentiu que os anos passaram-se como dias (Gn 29.20), assim poderia eu dizer que estes últimos quarenta dias passaram-se como se fossem algumas horas. Não quero afirmar, com isto, que o jejum tenha sido fácil; ou que o desejo pelas distrações e confortos voluntariamente renunciados não tenha sido intenso. Não obstante, esses quarenta dias foram de tal forma intensos e reveladores, que o seu transcurso se manifestou, pela assistência do Espírito Santo, graciosamente mais rápido do que o foi na realidade. O presente texto que o caro leitor tem agora diante dos olhos nasceu do desejo deste “penitente iniciante” de comunicar, em linhas bastante simples e práticas, um pouco da sua experiência com a observação da Quaresma.

Observando o tempo da Quaresma eu pude sentir-me em estreito contato com a tradição cristã. A observância de um período de jejum e conversão precedendo a celebração da Páscoa data do século IV da era cristã. Desde então, milhões e milhões de cristãos ao redor do orbe terrestre, de todas as partes do mundo, das mais diversas escolas e tradições cristãs reservaram dias específicos para buscarem, de modo especial, a face de Deus através do jejum, da oração e da leitura das Escrituras. Contemplando agora já o crepúsculo da estação quaresmal, saio da mesma feliz por sentir em maior contato com a nossa bimilenar tradição cristã.

Observando o tempo da Quaresma eu pude constatar a importância de, e a capacidade que o Senhor nos confere, para subjugarmos a nossa carne. As disciplinas física e espiritual às quais voluntariamente me submeti nestes quarenta dias me revelaram como o Senhor Jesus Cristo, de fato, socorre aqueles que são tentados (Hb 2.18); como o Espírito Santo deveras nos assiste em nossas fraquezas (Rm 8.26). Contemplando agora já o crepúsculo da estação quaresmal, saio da mesma fortalecido em meu homem interior, consciente de que realmente não há tentação permitida por Deus que esteja acima das nossas capacidades (1Co 10.13).
Observando o tempo da Quaresma eu pude constatar quanto tempo vinha desperdiçando com coisas triviais. O simples abandono de alguns hábitos, a moderação em algumas práticas, um pequeno sacrifício no tempo de sono... e eis que meu dia “ganhou” algumas horas. Tempo para os exercícios devocionais, tempo para reflexão, tempo para a família. A instrução apostólica para “remir o tempo” (Ef 5.16) ganhou, para mim, sentido e aplicação todo especiais nestas últimas semanas. Contemplando agora já o crepúsculo da estação quaresmal, saio da mesma decidido a consagrar melhor o tempo que o Senhor me tem dado sobre a terra.

Observando o tempo da Quaresma eu pude tornar-me mais consciente de toda a humilhação à qual voluntariamente se submeteu o Nosso Senhor Jesus Cristo enquanto esteve entre nós. Nos períodos em que eu sentia-me mais acossado pelo desejo de transgredir os votos que voluntariamente assumi, eu recordava o exemplo de Cristo, o qual, durante o seu ministério terreno, levou toda uma vida de renúncias, abstinências e sacrifícios. Longe de ser um mero ascetismo irracional e estéril, o período quaresmal foi para mim as lentes pelas quais pude enxergar quão pueris serão as minhas queixas por quaisquer dificuldades que eu venha a enfrentar, quão ínfimas serão todas as limitações com as quais eu venha a me deparar nesta vida; em comparação com o exemplo de Cristo, que “a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo” (Fp 2.7), quaisquer sofrimentos ou contrariedades que eu venha a enfrentar são nada, são “menos que nada, como um vácuo”. Contemplando agora já o crepúsculo da estação quaresmal, saio da mesma decidido a ter firmemente diante dos meus olhos o exemplo de renúncia e abnegação que nos deixou Nosso Senhor Jesus Cristo.

Este foi um singelo resumo da experiência que pude desfrutar ao término desta temporada de quarenta dias. Espero que este relato e o seu tom um tanto pessoal não sejam recebidos pelo caro leitor como presunção, pieguice, ou qualquer outra coisa do gênero. Se este texto tiver servido para despertar o seu interesse pela Quaresma, dar-me-ei por satisfeito em ter exposto – e me exposto – nestas linhas tão desajeitas, um pouco daquilo que o Espírito Santo trabalhou no meu coração nas últimas semanas.

Feliz Tempo de Páscoa a todos!

Christus vincit!