quarta-feira, 19 de abril de 2017

Como a Reforma Falhou - por Peter J. Leithart





Os Reformadores não começaram com um plano para criar igrejas separadas. Seu objetivo era reformar toda a igreja Latina. Nisto eles falharam.

O paradoxo é grande, e se nós Protestantes vamos reconhecer isto honestamente com nossa história durante este ano de celebração, necessitamos sentir seu ponto e seu limite.

A Reforma foi genuinamente uma redescoberta do evangelho. Scott Hendrix (Recultivating the Vineyard) argumenta que ela foi um esforço para re-evangelizar e Cristianizar uma civilização que apesar de oficialmente Cristã, o era superficialmente. Eles de muitas maneiras tiveram sucesso, colocando a igreja e o mundo em uma jornada sem precedentes. 

Os reformadores atacaram teologias medievais errôneas sobre a graça que, em prática, faziam as pessoas acreditarem que Deus ajudava aqueles que ajudavam a si mesmo. A igreja Católica nunca negou o sacerdócio dos crentes, mas ela o obscureceu e o comprometeu de muitas formas; os Reformadores restauraram o entendimento bíblico do sacerdócio Cristão. Eles treinaram ministros para ensinarem a Bíblia, e ensinaram a Bíblia aos leigos; criaram instituições de supervisão e disciplina para garantir que os Cristãos e seus líderes estavam vivendo de maneira Cristã. A própria igreja Católica passou por uma reforma, provocada parcialmente pelos Reformadores.

Alguns acusam os Reformadores de terem tido a intenção de dividir a igreja, por supostamente terem pouco interesse na unidade visível dela, mas isso é falso. Todos os Reformadores e todas as confissões Protestantes insistem na unidade e catolicidade da igreja. Calvino lamentou o que ele chamava de “mutilação” do corpo de Cristo.

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Longe de negar ou fazer pouco caso da visibilidade da igreja, a Reforma foi um esforço para tornar a igreja visível. A igreja Católica certamente era visível, mas somente em seu poder, suas riquezas e sua proeminência social. Enquanto que a essência da igreja – a comunhão dos santos – estava oculta. Se você entrasse em uma igreja Católica no século dezesseis, veria um sacerdote realizando a Missa, mas não veria os crentes leigos partilharem da refeição Eucarística; já se entrasse em uma igreja Protestante, veria os santos comendo pão e bebendo vinho, santos recebendo os elementos santos, a mesa da comunhão dos santos estava visível.

Tudo isso meramente torna ainda maior o paradoxo da Reforma. Os Reformadores recuperaram o evangelho, e enfatizaram a unidade e catolicidade da igreja como implicação do mesmo. Ainda assim eles deixaram a igreja dividida.

Como Lee Palmer Wandel (The Reformation) apontou, a fragmentação da igreja foi penetrante, profunda e sem precedentes. Em 1500, o termo “Cristão” era unívoco; já em 1600, existia uma variedade de definições para esta palavra, e Cristãos de uma tradição não necessariamente consideravam Cristãos de outras tradições como Cristãos. Em 1500, um Cristão podia viajar de uma ponta a outra da Europa sem medo de perseguição; em 1600, toda forma de Cristianismo era ilegal em algum lugar no continente. Em 1500, a Missa Latina era a liturgia da igreja por toda a Europa Ocidental; em 1600, muitas liturgias Eucarísticas diferentes e mutuamente excludentes eram realizadas.

A divisão penetrou famílias e vizinhanças. Católicos cujos filhos contraíssem casamento em celebrações Protestantes não-sacramentais consideravam seus próprios netos como bastardos. O tempo era contado de forma diferente em diferentes partes da Europa: Católicos e Protestantes viviam em diferentes zonas de fuso horário.

Como isso aconteceu? Como pode uma Reforma comprometida com o evangelho, com a catolicidade e com a unidade dividir a igreja Ocidental e a civilização Europeia?

A própria igreja Católica foi uma das principais culpadas. Lutero reclamava que seus argumentos nunca eram engajados ou debatidos. Quando presente perante autoridades Católicas, elas simplesmente exigiram que ele se arrependesse. Lutero foi excomungado poucos anos depois da publicação das 95 teses, sem ter recebido uma séria e muito menos compreensiva oitiva. 

Teologicamente, divisão é obra misteriosa de Deus. Deus cria e recria o mundo por divisão e reunião. Ele o criou separando a luz da escuridão, as águas acima do firmamento das águas abaixo, a terra do mar. Ele criou Eva ao dividir Adão em dois. Todo profeta enviado a Israel veio com a espada. Moisés, Samuel, Elias e Eliseu, Isaías, Jeremias, Jesus: todos eles reuniram pessoas que queriam ouvir a palavra do SENHOR, e provocaram a hostilidade daqueles que fecharam seus ouvidos. Divisões acontecem, e quando Deus começa a renovar Sua igreja, podemos esperar por elas.

Ainda assim isso não pode ser justificativa para as divisões da Reforma, ou causa para complacência. Deus divide a fim de reunir: Adão se torna Adão-e-Eva de maneira que ambos se tornam uma carne; Israel e Judá se separam a fim de serem reunidos séculos depois; Judeus e Gentios são divididos pelo corte da circuncisão a fim de serem reunidos na circuncisão da cruz do Messias. Além disso, dizer que Deus cria e recria através da divisão não justifica toda e qualquer divisão. Algumas são necessárias; outras são legítimas, mas temporárias; ainda outras são mutilações do corpo de Cristo.

A história da fragmentação da Reforma é complicada, mas podemos isolar um caso central: a divisão de Lutero e Zwínglio sobre o caso da real presença, no Colóquio de Marburg em 1529. Uma vez divididos, seus seguidores perpetuaram a cisão. Cada lado, é claro, estava convencido de estar defendendo a verdadeira Reforma e de que o lado opositor havia comprometido ou distorcido o evangelho. Assim convencidos, eles mantiveram tradições separadas a fim de protegerem a pureza do evangelho.

Dois fatores são cruciais na perpetuação da divisão Protestante. O primeiro é a retórica. Sem seus vivos, interessantes e penetrantes discursos e discursadores, a Reforma não teria tido sucesso. Como Peter Matheson argumenta (Rhetoric of the Reformation), as contestações da Reforma eram libertadoras, clarificadoras, fortalecedoras. Isso era uma ferramenta dos sem poder contra os poderosos, e Lutero era seu mestre. Ainda assim, os Reformadores eventualmente viraram seus consideráveis poderes de retórica uns contra os outros, criando lados altamente contrários e tratando toda disputa como uma guerra cósmica de luz contra escuridão, verdade contra erro. A querela da Reforma tornou-se propaganda, o que reforçou o grupo de identidades de comunhões separadas ao demonizar outras igrejas. Mesmo com todas as virtudes da retórica, Luteranos e Reformados teriam sido mais bem servidos de respostas gentis.

O segundo fator é a formulação de confissões e a confessionalização. Confissões foram escritas para unificar Protestantes divididos. A Formula de Concordia encerrou a guerra entre Luteranos, e o Consensus Tigurinus unificou o Protestantismo suíço. Mesmo assim toda confissão também dividiu uma tradição da outra. Ao definir a doutrina Luterana contra as tendências Reformadas dentro do Luteranismo, a Formula de Concordia levou os Philipistas (seguidores de Philip Melanchthon) ao underground ou às igrejas Reformadas. Toda confissão era um projeto contrário a outro, parte da perpetuação deliberada de tradições separadas que teve seu início em Marburg.

A confessionalização – ensinar e aplicar ensinamentos de uma confissão – perpetuou as divisões confessionais. Não era suficiente escrever uma confissão. Pastores tinham que ser ensinados nela, e precisaram ser desenvolvidos mecanismos que garantissem que eles continuassem a ensinar doutrina confessional depois de serem ordenados. Mesmo na melhor das circunstâncias, quando um ponto de vista contrário era tratado justamente e bondosamente, a confessionalização reforçou e aprofundou a divisão confessional. E as circunstâncias nem sempre eram as melhores. Mestres e pastores nem sempre tratavam visões contrárias com bondade e justiça. Muito mais do que o necessário, sábio ou bondoso, eles adotaram a retórica severa dos Reformadores.

A divisão inicial em Marburg em 1529 não foi intencional. Marburg começou como um esforço para unificar o movimento Protestante. Mas uma vez que Lutero e Zwínglio seguiram caminhos diferentes, o desenvolvimento de tradições Luteranas e Reformadas separadas foi intencional.

Se os Reformadores tivessem sido permitidos a permanecerem na igreja Católica, se a hierarquia Católica se submetesse à correção e arrependimento, a Reforma teria sido sucedida. Ela seria ainda mais sucedida se tivesse permanecido um movimento unificado. Banida da igreja Católica e dividida em tradições separadas, a Reforma falhou: falhou no seu objetivo inicial e primordial – reformar a igreja Ocidental de acordo com o evangelho, cristianizar a civilização Cristã na Europa Ocidental. E ela ao final não terá sucesso até que as feridas da igreja de sua época e da época da pós-reforma (sem mencionar as da pré-reforma) sejam curadas.

O protestantismo não alcançará seu objetivo até que cessem as divisões da Reforma.

texto original: How the Reformation Failed 
tradução: Jonathan Arthur Morandi