quarta-feira, 3 de maio de 2017

Horários Fixos de Oração - por Dave Hall



“Então, como está sua vida de oração?”

Como pastor, quando as pessoas me procuram para aconselhamento pastoral, ou formação espiritual, sempre surge uma questão na conversa: “então, como está sua vida de oração?” Por mais de 17 anos a resposta tem sido geralmente “bem, poderia ser melhor”. Alguns inclusive respondem honestamente “bem, basicamente ela não existe.”

Eu entendo muito bem, porque eu mesmo já passei por isso. Por vezes estamos muito ocupados, outras vezes passamos por algo tal que, mesmo tendo tempo para orar, não sabemos exatamente o que dizer, as palavras nos faltam. Isto certamente foi verdadeiro para mim até alguns meses após perder meu pai. Meu espírito se preocupava demasiadamente com as coisas do mundo, eu não tinha palavras, não conseguia orar, tinha muito pouca energia ou desejo para isso.

Pouco tempo após perder meu pai, tendo me retirado a um monastério descobri o costume monástico dos horários fixos de oração. Isto me intrigou, então tornei-me estudante, e enquanto passava pelas profundezas de minha inabilidade no desejo de oração, encontrei renovo ao praticar pausas rítmicas durante meu dia para focar em Deus, orando os salmos, e talvez também algumas orações escritas por santos do passado. As vezes Santo Agostinho, Francisco, ou Merton pensavam e escreviam exatamente o que eu sentia em meu coração. Também fui apresentado a ricos exemplos daqueles que praticavam um ritmo diário de oração na narrativa bíblica e na história.

Sobre Daniel foi dito

“e três vezes no dia se punha de joelhos, e orava, e dava graças diante do seu Deus” - Daniel 6:10

Esta é uma das primeiras referências registradas nas Escrituras sobre orar em tempos específicos do dia. De onde Daniel tirou esta ideia? Nos Salmos encontramos referências sobre oração em tempos específicos, aqui estão algumas:
  • Oração Matutina:
Pela manhã ouvirás a minha voz, ó Senhor; pela manhã apresentarei a ti a minha oração, e vigiarei. – Salmo 5:3 (ver também Salmo 55:17; 59:16; 88:13; 92:2)
  • Oração Vespertina:
Quando me lembrar de ti na minha cama, e meditar em ti nas vigílias da noite. – Salmo 63:6
  • Oração da Noite:
Lembrei-me do teu nome, ó Senhor, de noite, e observei a tua lei (Salmo 119:55)
  •  3 orações durante o dia:
De tarde e de manhã e ao meio-dia orarei; e clamarei, e ele ouvirá a minha voz (Salmo 55:17)

Historicamente falando

O povo de Deus no Antigo Testamento desenvolveu horários fixos de oração durante o cativeiro na Babilônia, quando não tinham acesso ao Templo. Isto era exatamente o que Daniel fazia. Por não terem mais o templo, os sacrifícios, seu antigo ritmo de vida, em esforços para manterem alguma sanidade entre as grandes mudanças na Babilônia, o povo de Deus criou a prática de manter horários de oração.

Os apóstolos também observavam este costume de orar nas horas terça, sexta e nona, e também à meia-noite. Se você observar pelo livro de Atos, descobrirá várias referências a este respeito, pode inclusive já ter visto e não ter percebido:
  • Um dia Pedro e João foram ao templo na hora da oração, a hora nona – as três da tarde – Atos 3:1
  • Um dia Cornélio, também durante a hora nona, teve a visão de um anjo de Deus, que veio a ele disse “Cornélio! ” – Atos 10:3·
  • Pela meia-noite Paulo e Silas estavam orando e cantando hinos a Deus, e os outros prisioneiros os escutavam – Atos 16:25

Progressão Histórica

Então vemos uma progressão histórica, desde a cultura do antigo povo de Deus, até os apóstolos, até à igreja primitiva, que também praticava tempos regulares de oração durante o dia. Pais da Igreja tais como:
  • Clemente (c.150-250 d.C.)
  • Orígenes (c.185-254 d.C.)
  • Tertuliano (c.160-225 d.C.)
Todos reportaram aderirem a prática espiritual de horas regulares de oração.

Como os cristãos primitivos continuaram a prática de orar certas horas durante o dia ou noite, o desenvolvimento da Liturgia das Horas, ou Oração Monástica, continuou. No tempo de São Bento (século VI), haviam 7 tempos de oração por dia. Bento adicionou um 8º horário, em concordância com o moto Beneditino “ora et labora” (orar e trabalhar) para a vida dos monges.

As horas monásticas de oração seguiam desta maneira:
  • Matinas – meia-noite
  • Laudes – 3 da manhã
  • Prima – 6 da manhã
  • Terça – 9 da manhã
  • Sexta – Meio-dia
  • Nona – 3 da tarde
  • Véspera – 6 da tarde
  • Completas – 9 da noite
Com o 8º ofício de oração, os monges oravam a cada 3 horas. Isso pode parecer estranho, mas se pensar sobre isso, é também confortável perceber que em todos os tempos, e em todos os lugares, existiram e existem pessoas comprometidas a orar pelo mundo, por séculos.

Do monastério para as ruas de sua própria cidade

Três ordens foram fundadas por São Francisco: Os monges, as irmãs e a terceira ordem. A terceira ordem, conta-nos a história, foi fundada depois de Francisco e os irmãos pregarem em um vilarejo as palavras de Jesus “Vá e venda tudo o que tem, então vem e siga-me”. O vilarejo de aproximadamente 3000 pessoas, depois de ouvir a pregação, disse: “Ok Francisco, estamos prontos para largar tudo e te seguir...” Francisco deve ter pensado “E agora, o que farei com mais 3000 pessoas me seguindo” e assim nasceu a ordem terceira. Ela foi estabelecida para pessoas comuns que queriam viver uma vida de oração, generosidade e amor puro a Deus e aos homens. Com a terceira ordem estabelecida o povo podia viver e orar como um monge, sem realmente deixar todo o resto e ir a um monastério. Eles podiam criar seus filhos, trabalhar e cuidar de suas famílias, e podiam orar.

Desenvolvimentos posteriores nos horários fixos de oração nos deram:


  • O Livro de Oração Comum foi originalmente escrito em 1549, e seguiu um modelo monástico de oração.
  • A Comunidade Ecumênica Taize, na França, onde mochileiros vão e ficam com os irmãos simplesmente para orar, foi fundada em 1940.
  • A Comunidade Northumbria, estabelecida por volta de 1980, concede uma aura celta e mantém as horas de oração. Outras várias comunidades neo-monásticas trouxeram um renascimento para as horas fixas de oração.
  • The Divine Hours, uma recriação de ofícios clássicos de oração de Phyllis Tickle, originalmente publicada em 2000.

Formação espiritual em dificuldade

No trabalho do cuidado pastoral frequentemente eu encorajo as pessoas, especialmente em tempos difíceis, a adotarem e manterem dois ou três pequenos ofícios de oração por dia, eu tento obter livros extras de oração para distribuir, conforme vejo necessidade. Muitas vezes as pessoas voltam para relatar os benefícios que obtiveram das horas fixas de oração em tempos difíceis.

Lei é morte, mas liberdade é vida

A ideia de horários fixos de oração deve servir para desenvolver sua vida de oração, não para cumprir uma obrigação. Se você marca o horário no relógio, se torna um escravo disso, e condena a si mesmo se falhar, então você não entendeu. O objetivo de fixar horas de oração é praticar, ser intencional e focar em sua conversa, ação de graças e no ouvir a Deus. Se isto está alimentando sua alma, então busque duas ou três pequenas pausas durante o dia para focar novamente em Deus, e estar em sua presença. É disso que isso tudo se trata!

Original: Fixed Hour Prayer
Tradução: Jonathan Arthur Morandi